sábado, 16 de abril de 2011

REVISITANDO A EDUCAÇÃO NA GRÉCIA ANTIGA:
A PAIDÉIA
Vívian da Silva Lobato
A PAIDÉIA - O IDEAL DE EDUCAÇÃO GREGO

Durante os séculos V e VI a. C a cultura grega, impulsionada pelas transformações sociais e econômicas, sofre mudanças. Surgem novos grupos sociais ligados ao comércio, estes reclamam uma maior participação na vida política da Grécia. Ao lado disso, surge uma cultura mais crítica em relação ao saber religioso e mítico, que exalta a razão pessoal de cada indivíduo e é capaz de submeter à análise qualquer crença ou tradição.
Para transmitir essa nova cultura, nasce um novo ideal de educação na Grécia, conhecido como Paidéia, que busca a formação do homem em suas várias esferas (social, política, cultural e educativa), ou seja, é uma educação mais antropológica e que considera o homem como um ser racional. Essa educação atribui ao homem, sobretudo, uma identidade cultural e histórica.
Nasce a pedagogia como saber autônomo, sistemático e rigoroso; nasce o pensamento da educação como episteme; e não mais como ethos e como práxis apenas.

A Paidéia é entendida como uma formação geral que dará ao homem a forma humana, ou seja, que o construirá como homem e como cidadão. Assim, ela significou a educação do homem de acordo com a verdadeira forma humana e que brota da idéia.

O termo Paidéia não pode ser traduzido simplesmente como educação, significa muito mais que isso, significa também cultura, instrução e formação do
homem grego. Este termo começou a ser utilizado no séc. IV a.c. e nesta época significava apenas a criação dos meninos. Mas o seu significado se alargou e passou a designar também o conteúdo e o produto dessa educação.
Torna-se claro, porque, a partir do séc. IV os gregos deram o nome de Paidéia a toda a sua tradição.
Enfim, a Paidéia, é a busca do conhecimento do homem, de forma individual, para que este possa interferir na organização política e social da pólis, a idéia principal é colocar o homem a par de todo o conhecimento necessário para a harmonia consigo próprio e com a comunidade ao seu redor.

A EDUCAÇÃO NO PERÍODO HELENÍSTICO

No final do século IV a.C., se inicia a decadência das Cidades-Estados gregas e a cultura helênica se mistura com as das civilizações que dominam a Grécia. Desta forma a antiga Paidéia torna-se enciclopédia, ou seja, “educação geral" que consistia na formação do homem culto diminuindo ainda mais o aspecto físico e estético. Neste período cresce o papel do pedagogo com a criação do ensino privado e o desenvolvimento da escrita, leitura e o cálculo.
Inúmeras escolas se espalham e da união de algumas delas (Academia e
Liceu) é formada a Universidade de Atenas, lugar de importante desenvolvimento intelectual que dura inclusive até o período de dominação romana.


PERÍODO CLÁSSICO (SÉCULO V a.c.)

Atenas havia se tornado o centro da vida social, política e cultural da Grécia, em virtude do crescimento das cidades, do comércio, do artesanato e das artes militares. Atenas vivia seu momento de maior florescimento da democracia. A democracia grega possuía duas características de grande importância para o futuro da filosofia.





Em primeiro lugar, a democracia afirmava a igualdade de todos os homens adultos perante as leis e o direito de todos de participar diretamente do governo da cidade, da polis. Em segundo lugar, e como conseqüência, a democracia, sendo direta e não por eleição de representantes no governo, garantia a todos a participação no governo e os que dele participavam tinham direito de exprimir, discutir e defender em público suas opiniões sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Surgia assim, a figura do cidadão. (CHAUÍ, 1995, p. 36).

O indivíduo somente se torna cidadão quando exerce seus direitos de opinar, discutir, deliberar e votar nas assembléias. Dessa forma, o novo ideal de educação é a formação do bom orador, ou seja, aquele que saiba falar em público e persuadir os outros na política.
Para dar esse tipo de educação aos jovens, surgem os sofistas que foram os primeiros filósofos do Período. Os sofistas não tinham uma origem bem
definida, eles surgiram de várias partes do mundo. Sofista significa "sábio", "professor de sabedoria", no sentido pejorativo passa a significar "homem que emprega sofismas", ou seja, homem que usa de raciocínio capcioso, de má-fé
com intenção de enganar.
Os sofistas contribuíram muito para a sistematização da educação. Eles se julgavam sábios e possuidores da sabedoria. Eles ensinavam a retórica, que é a arte da persuasão, mas, vale ressaltar que não ensinavam de graça, os sofistas cobravam por seus ensinamentos. E por cobrarem e se julgarem possuidores da sabedoria, foram bastante criticados por Sócrates e seus seguidores, pois, para
Sócrates o verdadeiro sábio é aquele que reconhece sua própria ignorância. Para combater os sofistas, Sócrates desenvolve dois métodos que são bastante conhecidos até os dias de hoje: a ironia e a maiêutica.
O primeiro consiste em questionar o ouvinte à respeito do que ele considera
como verdade e tentar fazer o ouvinte entender que ele realmente não sabe tudo.
Depois que o ouvinte se convencia disto, Sócrates passava a utilizar o segundo
método que é a maiêutica, que significa dar luz às idéias. Nesse momento o
ouvinte consciente de que não sabe tudo busca saber mais, buscando respostas por si próprio.


A PEDAGOGIA GREGA – OS PERÍODOS DA FILOSOFIA

O termo pedagogia é de origem grega e deriva da palavra “paidagogos”, nome que era dado aos escravos que conduziam as crianças à escola. Somente com o tempo, esse termo passou a ser utilizado para designar as reflexões que estivesses  relacionadas à educação.

A Grécia clássica pode ser considerada o berço da pedagogia, até porque é justamente na Grécia que tem início a primeira reflexão acerca da ação pedagógica. Essas reflexões vão influenciar por séculos a educação e a cultura do ocidente.
Os povos orientais acreditavam que a origem da educação era divina, o conhecimento deles se resumia aos seus próprios costumes e crenças. Tudo isso impedia uma reflexão mais profunda sobre a educação, pois, esta era fruto de uma organização social teocrática.
Contudo, na Grécia Clássica, a razão se sobrepõe ao conhecimento puramente religioso e místico. Nesta época a concepção dos gregos de educação se resume à inteligência crítica e à liberdade de pensamento do homem.
O nascimento da filosofia grega foi um fator de grande importância para o desenvolvimento de uma nova concepção de educação da Grécia.

Os períodos em que a filosofia grega se divide são:

- Período pré-socrático (Século VII e VII a.C.); os filósofos das colônias
gregas iniciam o processo de separação entre a filosofia e o pensamento mítico.






- Período socrático (Séculos V e IV a.C.) Sócrates, Platão e Aristóteles. Os
sofistas são contemporâneos de Sócrates e alvos de suas críticas. Isócrates também é desse período.
- Período pós-socrático (Séculos III e II a.C.) época helenística, após a morte de Alexandre. Fazem parte desse período as correntes filosóficas: o ,mestoicismo e o epicurismo.

O Período pré-socrático se inicia no final do século VI a.C., quando aparecem os primeiros filósofos nas colônias gregas da Jônia e na Magna Grécia.
Esse período caracteriza-se como uma nova forma de analisar e ver a realidade.
Antes esta era analisada e entendida, que anteriormente era analisada e entendida apenas do ponto de vista mítico. Vale ressaltar que a filosofia não vem para romper radicalmente com o mito, mas sim utilizar o uso da razão no esclarecimento da origem do mundo. Os antigos mitos sobre a origem do mundo que foram transmitidos oralmente e depois transformados em poemas por Homero e Hesíodo são questionados pelos pré-socráticos com o objetivo de explicar a origem do mundo.

Outra diferença que podemos notar entre a filosofia nascente e as concepções míticas é que esta não admitia reflexões ou discordância. A filosofia nascente por sua vez deixa o espaço livre para reflexão, daí cada filósofo surgir com uma explicação diferente para a origem do mundo.
Assim, todas as antigas afirmações à respeito da natureza (phisys) são questionadas, ou seja, os filósofos passam a exigir fatos que justifiquem as idéias expostas. Toda essa mudança de pensamento é de fundamental importância para o enriquecimento das reflexões pedagógicas em busca de um novo ideal de  educação.

O Período Socrático (séculos V a IV a . C.) é marcado pela influência de três grandes filósofos, Sócrates, Platão e Aristóteles.
Sócrates (470 – 399 a . C) tomou como ponto de partida o princípio básico da doutrina sofista. “ O homem é a medida de todas as coisas” ( CHAUÍ, p. 37).

Se o homem é a medida de todas as coisas, é obrigação de todo homem procurarconhecer a si mesmo. Para ele, o homem deveria procurar conhecer a si mesmo.
Para ele, o homem deveria procurar os elementos determinantes da finalidade da vida e da educação. Porém, a consciência individual deveria deixar de se fundamentar por simples opiniões, para poder guiar-se por idéias de valor universal.

O fim da educação, então, não era dar a informação sem base que, aliada a um verbalismo superficial e brilhante, constituía o ideal dos sofistas. Era ministrar saber ao indivíduo, pelo desenvolvimento do seu poder de pensamento. Todo indivíduo tem em si a capacidade de conhecer e apreciar tais verdades como as de fidelidade, honestidade, verdade, honra, amizade, sabedoria, virtude, ou pode adquirir essa capacidade. (PILLETTI, 1990.P. 33).

Platão nasceu em Atenas (428 -347 a.C.) de família nobre. Foi discípulo de
Sócrates. A obra de Platão apresenta uma grande preocupação política com o seu país (que havia saído de uma tirania. Suas principais obras são: A República e As Leis. Para Platão até os 20 anos, todos merecem a mesma educação, nesta, ocorre o primeiro corte e se define que são os grosseiros que devem se dedicar a agricultura, comércio e ao artesanato. Depois devem estudar mais 10 anos e se dar o segundo corte,e se define daqueles que têm a virtude da coragem, esses serão os guerreiros que cuidarão da defesa da cidade. Os que sobrarem desses cortes serão incluídos na arte de dialogar e preparados para governar.

Na Grécia Antiga, o cuidado com o aspecto físico do corpo era muito importante. No entanto, Platão apesar de reconhecer a importância dos exercícios físicos, acreditava que a educação espiritual era superior a educação física. Trata se da superioridade da alma sobre o corpo, ele explica que a alma ao ter que possuir um corpo torna-se degradante.

O conhecimento, para Platão, é resultado do lembrar daquilo que a alma já contemplou no mundo das idéias, sendo assim, ela consiste em despertar no
indivíduo o que ele já sabe e, não se apropriar de um conhecimento que está fora.
Outro aspecto da pedagogia platônica é a crítica que ele faz aos poetas. Na sua época a educação das crianças era baseada em palmas heróicas da época, mas ele diz que a poesia deveria ficar limitada ao mundo artístico e não ser usada na educação.
Em Aristóteles (384-332 a.C.) podemos perceber um  outro importante aspecto da pedagogia grega. Apesar de ser discípulo de Platão, ele desenvolveu
uma teoria voltada para o real, onde procurava explicar o movimento das coisas e a imutabilidade dos conceitos, ou seja, para Aristóteles tudo tem um devir, um movimento, uma passagem. Ele também desenvolveu um conceito de educação partindo da idéia de imitação:

O que nos animais é apenas capacidade imitativa, no homem se converte numa arte.O homem se educa na medida em que copia a forma de vida das adultos. Ele se educa porque atualiza as suas energias. Segundo a doutrina de Aristóteles, o educando é potencialmente um sábio e, com a educação ele converte em ato o que é suscetível de desenvolver. (PILLETI, 1990, p. 35)


A educação formal, propriamente dita, teve início na Grécia antiga. Com intuito de atingir o objetivo deste trabalho e desenvolver uma pesquisa levantando dados históricos da evolução da educação na Grécia, é possível indicar alguns traços característicos da cultura grega que proporcionaram o desenvolvimento do ensino, tipo: o descobrimento do valor humano, do homem em si, da personalidade, independentemente de toda autoridade religiosa; o reconhecimento da razão, da inteligência crítica, libertada de dogmas; a criação da vida cidadã, do Estado, da organização política. A criação da liberdade individual e política dentro da lei e do Estado; a invenção da poesia épica, da história, da literatura dramática, da filosofia e das ciências físicas; o reconhecimento do valor decisivo da educação na vida social e individual; da educação pública a consideração da educação humana em sua integridade física, intelectual, ética e estética.

Todas as características anteriormente citadas continuam sendo metas a serem atingidas pela educação atual. Assim, esperamos ter colaborado para a efetivação de um estudo crítico e reflexivo sobre a educação grega a partir do
contexto histórico-social que a influenciou e determinou sob a perspectiva de que, sendo a educação um produto humano e histórico, pudéssemos perceber a educação atual como parte do desenvolvimento histórico. Paidéia é, talvez, entre todas, a maior e mais original criação cultural do gênio e do espírito gregos e queainda hoje é pertinente à educação do homem atual, é modelo a ser seguido portodos aqueles que entenderem a educação como prática da liberdade.

Enfim, em matéria de educação, os gregos não só definem o modelo, como, indicam a pedagogia a seguir. Por tudo isso, somos levados a concluir que uma história da educação, com sentido e significado para nós, para a nossa realidade educativa atual começa na Grécia Antiga.


BIBLIOGRAFIA
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação. SP: Moderna, 1989.
___________ & MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução
à Filosofia. SP: Moderna, 1995.
CAMBI, Franco. História da Pedagogia. SP: UNESP, 1999.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. SP: Ática, 1995.
FONSECA, Maria de Jesus. A Paidéia Grega Revisitada. SP, artigo, s/d.
GOMES, Joaquim Ferreira. História da Educação. Coimbra, 1967.
GUIMARÃES, Maria Alice. História da Educação. Aveiro: Editorial Vouga, 1974.
HOLANDA, Aurélio Buarque. Dicionário da Língua Portuguesa. RJ: Nova
Fronteira, 1999.
JÄEGER, Werner. Paidéia: A formação do homem grego. Lisboa: Áster, 1967.

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